Programas económicos requieren empleo y producción para impactar

A cerca de 30 meses de gestão, o governo ainda não conseguiu acessar o mercado internacional de dívida. Isso, mesmo tendo cumprido com tudo o que os investidores pedem, como ajuste fiscal, privatizações e alinhamento com os mercados. Esse ponto foi destacado pelo ex-ministro da Economia e ex-presidente do Banco Central, Alfonso Prat-Gay, durante um almoço no Rotary Club de Buenos Aires, onde fez uma avaliação crítica do programa econômico atual.

Ele destacou que é meio paradoxal que um governo que se define como libertário, e que atendeu a todas as demandas de Wall Street, ainda não tenha conseguido financiamento externo. Prat-Gay falou para um público de mais de 140 empresários que estão alinhados com ideias libertárias, e alguns expressaram preocupação com a falta de diálogo e a baixa tolerância a opiniões divergentes, além de critiques ao tom e à linguagem utilizada.

O cenário não é nada fácil. A Argentina enfrenta vencimentos anuais de cerca de 20 bilhões de dólares em moeda estrangeira. Se não houver refinanciamento, a única saída será pagar tudo em dinheiro. Para complicar ainda mais, as reservas líquidas do Banco Central estão em território negativo e há um déficit na conta corrente.

Prat-Gay afirmou que essa situação “não é sustentável”. Ele acredita que o superávit comercial não é suficiente para cobrir o resultado negativo quando se considera também o setor de serviços.

Outro ponto que ele abordou foi a falta de confiança na moeda local. Como as pessoas estão relutantes em usar pesos, isso impede a recuperação da economia. Sem uma demanda crescente por dinheiro, o crédito não se expande, o que dificulta a reativação econômica, e as reservas continuam sem aumentar.

O ex-ministro lançou uma pergunta no ar: “Por que os argentinos não confiam no peso, e por que os credores externos não têm fé no programa?” E ele acredita que enquanto essa situação não se resolver, estaremos numa posição bem frágeis.

“O programa econômico não conquista corações”

Prat-Gay destacou que “nenhum programa econômico vai conquistar” se não gerar mais empregos, produção e exportações. Ele notou a desconexão entre a macro e a microeconomia, afirmando que não dá para a macro estar bem se a micro está danificada. Para ele, “se o programa econômico resulta em microeconomia negativa, então o programa em si está errado”.

Ele também se debruçou sobre a luta contra a inflação, que permanece desafiadora. Mencionou que, atualmente, a inflação está em torno de 3% ao mês, uma comparação nada favorável se olharmos para a gestão de Mauricio Macri, quando era de 1,5%, ou até para períodos anteriores, que apresentavam índices ainda mais baixos.

Prat-Gay crê que o governo subestimou a inércia inflacionária do país e que essa questão precisa ser melhor compreendida. E vai além: não basta focar no equilíbrio fiscal e evitar a emissão de moeda, porque isso já foi tentado sem sucesso no governo anterior.

Ele enfatizou que reformas estruturais devem ser conseguida por consenso, afinal, com outro governo no futuro, tudo pode mudar. E apesar de não desalentar quanto à possibilidade de que o programa econômico se consolide, ele destaca que é imprescindível haver entusiasmo, crescimento sustentável e uma diminuição das diferenças entre as áreas mais centrais e o interior do país.

Risco

O ex-ministro também fez um alerta sobre o risco de voltarmos ao passado caso o programa não se consolide. “Que Deus não permita que o que já passou retorne, mas primeiro o governo precisa evitar isso”, comentou.

Quanto à possibilidade de voltar a se envolver em um partido político, ele se mostrou indeciso, mas ressaltou que é fundamental que os líderes “gerem empatia”.

Ele também falou sobre as denúncias contra o chefe de Gabinete, Manuel Adorni. “É evidente que estamos em uma transição, onde práticas antigas, como financiar planos sociais sem orçamento, já não têm espaço. O que não sabemos é se o novo realmente surgiu. O governo veio para acabar com a casta e as práticas prejudiciais, mas o chefe de Gabinete parece preso ao que tentou mudar”, argumentou.

E para finalizar, Prat-Gay ressaltou que para que consigamos avançar para o novo, os que nos lideram devem ser “íntegros e totalmente éticos”.

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